
Incrível como rendem tantos louros o espólio dos Beatles! Cada vez surge uma novidade. A última e talvez a mais interessante desde Anthology (1995) é o relançamento de toda a discografia oficial do grupo remasterizada e mixada em estereo. Isso significa uma mudança enorme se formos levar em conta que a banda só gravava em mono e deixava a cargo do quinto Beatle George Martin e do engenheiro de studio Geoff Emerick, o trabalho “sujo” de transformar os takes em estereo. Para quem remasterização não significa lhufas, é, no caso de gravações que foram feitas há muitos anos, o trabalho de pegar as fitas Master, que são as fitas que foram originadas no momento em que os Beatles estavam tocando no estúdio, transferir faixa a faixa para arquivos digitais e a partir daí usando programas como o Pro Tools (o Photoshop da musica) trabalhar cada sonzinho que foi gerado pelos caras de forma a deixá-los parecendo que foram gravados nos dias hoje.
Para mim, mesmo ouvindo em arquivos de MP3 – que tem qualidade inferior as dos cd’s – o que mais me impressiona é o peso que os Beatles tinham, principalmente o baixo de Paul McCartney. Antes sua linha de baixo não chamava sequer a atenção. Músicas como I Saw Her Standing There e Please Please Me, só para citar duas músicas do início da carreira dos caras, mudam completamente por causa do som do baixo. É como se as músicas fossem uma bola murcha que de repente é enchida e preenche todos os espaços que antes estavam vazios. Claro que isso se aplica a todos os instrumentos e as vozes que ficaram mais nítidas e distinguiveis. É muito bacana ouvir o trabalho vocal que os Beatles faziam e perceber que aquelas vozes casavam tão bem. Basta ouvir Nowhere Man, composição de John, onde a maior parte da música é cantada em coro.

Não tem jeito, os The Beatles são os caras! Conseguiram antecipar quase tudo que seria feito no rock e até algumas coisas fora dele. Imagine o poderoso Steve Jobs pagando uma grana aos Beatles para poder usar a marca Apple?! Mas foi o que ele fez quando os Beatles finalmente encontraram um nome para sua corporação: Apple Corps em 1967. E resolveram registrar a marca no mundo inteiro. A idéia surgiu de um pequeno quadro de René Magritte, que foi deixado na casa de MacCartney pouco depois de pintado. O quadro, que tinha uma bela maçã verde, gerou, também, a idéia inovadora de se colocar uma imagem no rótulo central dos discos, que até então vinham com apenas as leterring’s com informações técnicas e nome das músicas.

E falando em Apple Corps. Imagina que você esta sentado confortavelmente sobre milhões de libras e, de repente, consultores fiscais te dizem que se você não investir seu dinheiro em algum negócio dedutível terá que pagar ao governo/reino 3 milhões de libras em impostos! Os Beatles não perderam tempo e fundaram a citada holding que se desmembrava em: Apple Records, Apple Films, Apple Publishing, Apple Electronics, Apple Boutique e etc. Com isso quem saiu ganhando foram os amigos e agregados, que mesmo sem experiência nos ramos do negócio, assumiram as empresas ganhando altos salários e não fazendo nada que desse reais frutos. Claro que isso não durou muito, mas pelo menos as libras não foram para os bolsos da realeza. E o fruto disso foi uma idéia, surgida logo depois, muito parecida e que deu certo: o Virgin Group de Richard Brenson. Que está presente no mundo todo.

A tendência, pelo andar da carruagem, é que os Beatles façam uma coisa que os Stones não conseguiram: renovar seu público. De forma comercial; com o relançamento dos discos remasterizados e com o jogo Beatles Rock Band. Que filho não vai se empolgar ao ver o seu pai barrigudo cantando She Loves You na sala de casa empunhando o baixo Hofner de Paul? E de forma emocional; isso se deve em parte a um corte no tempo que preservou a imagem dos Beatles intacta ao que era quando estavam junto. Ou seja, os Beatles não envelheceram como os Beatles ( os Stones envelheceram, e como, como os Stones) e os integrantes que morreram não morreram fazendo parte de um grupo em atividade. Deixaram apenas uma lacuna no inconsciente coletivo das pessoas que amavam e continuam amando aqueles quatro rapazes de Liverpool.
